quinta-feira, 15 de agosto de 2013

MAIOR CUTELEIRO DO BRASIL

NO FIO DA NAVALHA
Ao dedicar sua vida à arte da produção artesanal de facas, o gaúcho Rodrigo Sfreddo tornou-se o maior cuteleiro do Brasil 
Por Brono Weis
POR ESSA SYLVESTER STALLONE NÃO ESPERAVA. Mas foi seu personagem Rambo, ou mais exatamente a faca que o traumatizado soldado norte-americano carregava na cintura em seus filmes, que inspirou o então menino Rodrigo Sfreddo, nascido em Santa Maria, na Serra Gaúcha, a decidir o que queria ser da vida: cuteleiro. A faca de sobrevivência de Rambo, com 35 centímetros de comprimento, dorso serrilhado e bússola acoplada, virou a primeira paixão do garoto do interior que, ao longo de incursões no mato com o pai para pescar e caçar, havia adquirido o gosto por instrumentos de corte. Hoje, aos 37 anos, Sfreddo é considerado o maior cuteleiro do Brasil e confecciona facas que podem valer mais de R$ 6 mil. “Se eu aceitasse encomendas, o último da fila teria que esperar sete anos para receber o produto”, diz o artesão.
Primeiro brasileiro a receber o título de “Mastersmith” pela American Bladesmith Society, uma das principais certificações da cutelaria mundial, Sfreddo é o maior expoente no País de uma arte tão antiga que remete a mais de 2,5 milhões de anos atrás. Foi na pré-história que o homem forjou as primeiras peças cortantes de pedra, passo fundamental para garantir sua sobrevivência. Hoje facas e outros instrumentos como espadas, canivetes, adagas, navalhas, machados e punhais estão presentes em inúmeras atividades, da cozinha ao esporte, passando pelo afeitar nosso de cada dia e usos militares. “A cutelaria começa pelo amor às facas. Depois vira amor à própria cutelaria. A criação de uma nova peça, com as ideias e conceitos envolvidos, é o mais apaixonante”, resume Sfreddo.

O cuteleiro Sfreddo em ação: em busca da beleza perfeita na forma de faca
A cutelaria artesanal é tudo menos uma atividade industrial de grande escala, responsável pela produção da maioria dos instrumentos cortantes presente no cotidiano. É uma arte lenta, trabalhosa e que depende exclusivamente das habilidades manuais do cuteleiro. O resultado são peças de luxo voltadas para um mercado de colecionadores que chega a pagar US$ 80 mil por um único artigo. “Dizem que o recorde foi atingido por uma adaga de ouro maciço com 190 esmeraldas e nove diamantes, comprada por US$ 1,5 milhão”, conta Sfreddo, que leva um mínimo de três dias e um máximo de um mês para confeccionar uma peça. “Hoje produzo o que quero, com estilos e técnicas distintos. Depois fotografo e mando para os clientes, a maioria deles no Exterior”, afirma ele, cuja produção é de 30 facas por ano, em média.
A confecção começa pelo forjamento, no qual o aço incandescente é moldado a golpes de martelo até ficar com o formato desejado. Para ficar maleável, o metal chega a 1.100oC. “Tem que gostar de calor”, admite Sfreddo. O próximo passo é a usinagem, quando a lâmina é moldada para seu formato final com o uso de abrasivos e ferramentas. A seguir vem o tratamento térmico para que o aço fique com dureza e resistência necessárias, o acabamento final da lâmina, a confecção e ajuste da guarda e a montagem da empunhadura. “Depois disso tudo, podemos dar os acabamentos finais, afiar a faca e colocá-la na bainha”, explica o especialista, cujas primeiras facas de próprio punho foram feitas aos 14 anos de idade, por encomenda de uma tia. A brincadeira ficou séria e Sfreddo começou a remodelar e adaptar facas prontas. Autodidata, estudou e trabalhou tanto na forja do aço que, sem tempo para mais nada, acabou abandonando a faculdade de engenharia metalúrgica em Porto Alegre para, tal como hoje, se dedicar ao ofício que o faz viver sobre o fio da navalha. Literalmente.

MIL E UMA UTILIDADES
Três peças assinadas por Sfreddo para os principais tipos de facas:
Utilitárias ou de caça: são geralmente pequenas e destinadas à realização de pequenas tarefas cotidianas. Nas de caça, o design é pensado para “courear” uma caça, ou limpar um peixe. A school hunter (foto) é forjada em aço damasco, que permite criação de desenhos, bainha em couro de búfalo com aplique em couro de jacaré.
De cozinha: tem diversas formas e tamanhos, dependendo da tarefa a que são destinadas. Na foto, a chef, com nove polegadas de lâmina, forjada em aço damasco. Talas da empunhadura em bétula estabilizada, com aplique de madrepérola sobre os pinos. Bainha em couro.
De campo: são robustas e de grandes proporções, para tarefas pesadas, como construir um abrigo, abrir caminho no mato ou funcionar como arma. Na foto, um modelo bowie, forjado em aço damasco, com empunhadura em marfim de mamute e espaçadores em inox.

QUEM É RODRIGO SFREDDO
Idade: 37 anos
Profissão: cuteleiro
Carreira: profissionalizou-se em 1997, mas dez anos antes já havia vendido sua primeira faca.
Título: “Mastersmith” pela American Bladesmith Society, em 2009. É o primeiro a receber a certificação no Brasil.
Técnica utilizada: forjamento de aço-carbono e aço damasco. Especializado em facas integrais forjadas em damasco turco e outros padrões complexos.
Materiais empregados: madeiras raras, chifre de cervo e carneiro, marfins de mamute e morsa, madrepérola, couro de tubarão, avestruz e elefante
 MATÉRIA DE 28/09/2012

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